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B., 50 anos, divorciada após um casamento de 23 anos.

B., 50 anos, divorciada após um casamento de 23 anos…

“E percebi-me nova para tudo, para escolher uma profissão para o resto da vida e para seguir com alguém em um relacionamento sério, um casamento.

Não pude nem pensar se era isso mesmo que eu queria, pois a situação de meu namorado em relação à família e à vida estava insustentável e me achei responsável por aquela pessoa que se mostrava tão insegura e frágil, apesar de ser até mais velha do que eu. 

Hoje entendo que o fato de namorar alguém por um tempo não significa que você já tenha alguma certeza de querer ir além disso. Mas, naquela época parecia mesmo fazer sentido me casar, já que namorava há três anos e já que meu parceiro estava com grandes dificuldades. Porque não resolver esse problema, unir o útil ao agradável?

E por um tempo parecia até ter sido uma boa escolha, embora eu nunca tivesse tido certeza ou encantamento absoluto. 

E eis que uma pessoa de minha família, muita próxima de mim, de nós, também estava com problemas financeiros e porque não novamente unir o útil ao agradável e trazê-lo para trabalhar conosco? O cenário seria perfeito, eu o ajudaria, resolveria seu problema, ele estaria próximo e caminharíamos como uma família.

passaroCabe lembrar que nesse cenário perfeito todos trabalhávamos juntos na empresa de meu parceiro e estávamos, com isso, vinculados demais. Mas isso, na época, não causava problemas, apesar de gerar um certo incômodo.

E o tempo foi passando e fui percebendo, em meio ao turbilhão de problemas da vida, que caminhava em um relacionamento falido, sem amor e ainda sem encantamento. Não que não tivesse coisas boas e não tenha sido até feliz. Não que não existisse um certo amor, mas não era isso que eu queria. Falido no sentido de ter um limite, de não poder progredir mais e de se resumir no que já era.

Entendi que desde o início eu coloquei o outro a frente, coloquei meus desejos e necessidades em segundo plano. Não estou querendo dizer com isso que sou uma mártir, uma “santa” que abdiquei de tudo. O que quero enfatizar é que fui criando uma percepção disso tudo, mas meu erro foi achar que ao longo do tempo a ajuda que dei fosse criar um trampolim para eles e que fossem se tornar independentes de mim. Não parei para pensar que desde que comecei a ajudar nunca mais parei, nunca houve um fim.

Meu susto foi perceber minha dependência financeira, pois apesar de eu trabalhar muito, o negócio, vamos dizer assim, tinha a ver com a profissão dele e dependia dele para continuar, ou seja, nunca poderíamos dividir se eu me separasse.

Foi neste momento de minha vida que tive várias perdas, por mortes e também financeiras e me senti profundamente solitária, ajudando sem ter ajuda, resolvendo problemas da empresa, dele mesmo, de meu parente sem pensar no meus. Vi todos “sentados” a minha volta esperando que a vida melhorasse e que eu desse uma solução para tudo.

E decidi que passaria por aquela situação crítica, pois não saberia abandonar o barco, mas depois da estabilização de tudo eu cuidaria da minha vida, investiria na minha própria profissão, ganharia meu próprio dinheiro, delegaria a vida dos outros aos próprios e pensaria na qualidade de relacionamento que queria para mim.

Conforme fui amadurecendo tudo isso e fui caminhando percebi que não estava feliz há muito tempo e resolvi me separar e tentar outro caminho em minha vida.

Foi muito difícil tomar essa decisão, pois percebi que tanto meu parceiro quanto meu familiar dependiam de mim do mesmo modo de 20 anos atrás e não tinham caminhado nada na vida, não evoluíram em vários aspectos.passaro-gaiola

Me senti culpada, pensei muito em desistir de mim mais uma vez, mas depois percebi que eu tinha tentado ajudar e não manter a situação como era. Eu ajudei muito na tentativa de que essas duas pessoas melhorassem, que usassem a ajuda como um trampolim para mudanças, independência e autonomia. Em nenhum momento eu queria manter uma ajuda crônica, ou melhor, essa doença.

E com muito peso inicial, mas muita convicção segui meu caminho, fiz novas escolhas e MUDEI.

Sei que até hoje ambos estão vivendo as mesmas coisas, as mesmas dificuldades e se eu estivesse lá seria para manter tudo isso para o resto da vida.

Então eu digo, siga seu caminho, pois você não é responsável pela felicidade de ninguém além da sua.”

Sobre a história de B.: É perceptível o quanto a inexperiência e boa vontade a fez resolver situações sem pensar e a tornou uma apagadora de incêndios. Foi resolvendo os problemas, ajustando a vida das pessoas, mas não conseguia refletir que que estavam todos ao léu, incluindo ela mesma. Não havia um plano, um caminho traçado no qual cada um tivesse sua participação.

B. se tornou responsável pelas pessoas em volta e com isso manteve um sistema doente que dependia exclusivamente dela. Nem mesmo percebeu que sua própria vida se perdeu nesse processo, que se anulou da pior forma.

O que libertou B. foi olhar para si mesma, perceber sua dor e suas necessidades e entender que só ela poderia fazer escolhas nesse sentido. Nesse momento B. tomou as redes de sua vida, assumiu o controle da mesma. Sentiu-se culpada, pois fazer suas próprias escolhas e focar em sua vida significou deixar de resolver a vida dos outros e deixar que os mesmos cuidassem de seus problemas.

Um outro fator muito importante a ser considerado é que a ajuda tem um tempo e uma função, ela não pode ser eterna e crônica. Temos de ficar atentos ao que significa ajuda e quanto tempo ela será necessária.

Entendam que ninguém pode se responsabilizar pela vida do outro. Cada um tem a dor e a alegria que lhe cabem na vida.

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